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  • Lhivros e Arthivismo

Conto - DAMA DA NOITE - Caio Fernando Abreu

Atualizado: 16 de out. de 2021

Como estive lendo "Os Dragões Não Conhecem o Paraíso" de Caio Fernando Abreu, lançado em 1988, com certeza iria falar sobre os dois primeiros contos publicados por Caio que falavam, direta ou indiretamente, do hiv/aids.



Já publiquei o texto sobre o conto "Linda, Uma História Horrível", e hoje segue o segundo conto em que o hiv/aids aparece.



Todo o livro supracitado trata de temas de amores não correspondidos, amores urbanos,vividos em ambientes escuros, em bares sujos, entre almas imundas.


Marcelo Secron Bessa, em seu livro "Os Perigosos", que foi tratado aqui no blog, expõe que o ambiente social no qual Caio estava inserido já havia sido profundamente influenciado pela aids, gerando um horror não nomeado, uma impossibilidade de toques corporais, que são vistos sempre como uma transgressão.



Em "Dama da Noite" tais características estão mais marcadas. A própria Dama é uma mulher não nomeada, em um bar cheio de gente, conversando com um rapaz bem mais novo. Ela não quer dar detalhes sobre sua vida, só quer a companhia do jovem.


Fala inclusive que se precisar, ela paga. Paga comida, bebida, até sexo. O rapaz é muito novo, sem experiência de vida.


Ela, assim como ele, estão presos na roda. Que roda? Na roda da vida. Sim, a mesma roda citada várias vezes na série "Game of Thrones", em que os poderes temporais mudam, mas sempre condicionam os que estão abaixo.


Há um choque geracional entre ambos, e ela diz:


"Você não viu nada, você nem viu o amor. Que idade você tem, vinte? Tem cara de doze. Já nasceu de camisinha em punho, morrendo de medo de pegar Aids. Vírus que mata. neguinho, vírus do amor. Deu a bundinha, comeu cuzinho. pronto: paranóia total. Semana seguinte, nasce uma espinha na cara e salve-se quem puder: baixou Emílio Ribas. Caganeira, tosse seca, gânglios generalizados. Õ boy, que grande merda fizeram com a tua cabecinha, hein? Você nem beija na boca sem morrer de cagaço. Transmite pela saliva, você leu em algum lugar. Você nem passa a mão em peito molhado sem ficar de cu na mão. Transmite pelo suor, você leu em algum lugar. Supondo que você lê, claro. Conta pra tia: você lê, meu bem? Nada, você não lê nada. Você vê pela tevê, eu sei. Mas na tevê também dá, o tempo todo: amor mata amor mata amor mata. Pega até de ficar do lado, beber do mesmo copo. Já pensou se eu tivesse? Eu, que já dei pra meia cidade e ainda por cima adoro veado."


Aqui ela cita o nome aids pela primeira vez nos textos publicados de Caio (fora suas cartas pessoais). Aqui ela demonstra que o mundo sexual havia mudado: nada de contato pessoal sem medo, paranoia em todos os lugares, o desconhecimento e o estigma (alimentado por este) já presentes. Medo da saliva, medo do suor, medo do esperma, medo da secreção vaginal, medo do corpo do outro.


E se não fosse só isso, ela continua:


"Eu sou a dama da noite que vai te contaminar com seu perfume venenoso e mortal. Eu sou a flor carnívora e noturna que vai te entontecer e te arrastar para o fundo de seu jardim pestilento. Eu sou a dama maldita que, sem nenhuma piedade, vai te poluir com todos os líquidos, contaminar teu sangue com todos os vírus. Cuidado comigo: eu sou a dama que mata, boy. Já chupou buceta de mulher? Claro que não, eu sei: pode matar. Nem caralho de homem: pode matar. Já sentiu aquele cheiro molhado que as pessoas têm nas virilhas quando tiram a roupa? Está escrito na sua cara, tudo que você não viu nem fez está escrito nessa sua cara que já nasceu de máscara pregada. Você já nasceu proibido de tocar no corpo do outro. Punheta pode, eu sei, mas essa sede de outro corpo é que nos deixa loucos e vai matando a gente aos pouquinhos. Você não conhece esse gosto que é o gosto que faz com que a gente fique fora da roda que roda e roda e que se foda rodando sem parar, porque o rodar dela é o rodar de quem consegue fingir que não viu o que viu. O boy, esse mundo sujo todo pesando em cima de você, muito mais do que de mim e eu ainda nem comecei a falar na morte..."


Aqui, ela trata da inevitabilidade da vida humana. Caio, em suas cartas, expôs que por ser gay sabia que iria se infectar com o hiv, que a vida tinha mudado para sempre. E em "Dama da Noite" ele fala justamente sobre a inevitabilidade. Quem está vivo um dia morrerá, quem vive mais tem mais chances de morrer. Ela quer viver, já viveu muito mais que ele, mas quer ainda mais, sem abrir mão da própria vida. Ele não, ele já está contaminado pelo medo.


E termina o conto convidando o jovem a viver...:


"Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem. Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui. continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Parada pateta ridícula porra-louca solitária venenosa. Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro."

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