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  • Lhivros e Arthivismo

Conto - LINDA UMA HISTORIA HORRIVEL - Caio Fernando Abreu

O conto "Linda, Uma História Horrível" de Caio Fernando Abreu faz parte do conteúdo de seu livro de contos "Os Dragões Não Conhecem o Paraíso", lançado em 1988 e foi nele em que há a segunda citação, ainda indireta,ao hiv/aids em sua obra (a primeira, no conto "Pela Noite" do livro "O Triângulo das Águas, lançado em 1983).


Há outro conto do mesmo livro em que a citação ao hiv/aids ocorre, desta vez de forma direta, "Dama da Noite", e isso faz sentido... Nas palavras do próprio autor sobre o livro:


Se o leitor quiser, este pode ser um livro de contos. Um livro com 13 histórias independentes, girando sempre em torno de um mesmo tema: amor. Amor e sexo, amor e morte, amor e abandono, amor e alegria, amor e memória, amor e medo, amor e loucura. Mas se o leitor também quiser, este pode ser uma espécie de romance-móbile. Um romance desmontável, onde essas 13 peças talvez possam completar-se, esclarecer-se, ampliar-se ou remeter-se de muitas maneiras umas às outras, para formarem uma espécie de todo. Aparentemente fragmentado, mas de algum modo — suponho — completo.”



No conto em questão, o personagem chega à casa da mãe sem avisar. Ela, descrita como pessoa amarga e triste pelo filho, mora em uma casa decadente e opressiva, com manchas de gordura nas paredes da cozinha, papéis de parede sujos e rasgados, a casa está velha, sua mãe também...


O filho não queria estar lá. Na verdade, não queria estar em lugar nenhum. Nem dentro de si mesmo.


Mas ele lá precisava estar. Como gay, ele se sentia livre de tudo o que lhe havia sido ensinado. Ou assim ele acreditava se sentir.


E ele tinha uma missão, não comentada pelo autor. Missão esta que fica subentendida, e cujo resultado não saberemos.


Linda é o nome da cadela, descrita pela mãe como velha, e que só dorme, come e caga, esperando a morte. Mas ela é toda manchada.


A mãe também tem muitas manchas (ceratose) causadas pela idade. As paredes da cozinha também tem manchas (gordura). Todas as manchas no texto estão ligadas à decrepitude e à morte.


Ele cada vez mais desconfortável, a mãe percebe algo errado. Ele só diz que estava com saudades, após tantos anos sem contato com ela.


Enquanto tomam café, a mãe diz que todos da família morreram sozinhos, e essa seria a sina dela... e dele.


A mãe percebe que o filho estava mais magro, muito mais magro. E que tossia como um cachorro. Nesse momento, ele quase cumpre seu objetivo. Mas o momento escapa.


Ela ainda pergunta sobre sua saúde: "diz que tem das doenças novas por aí, vi na TV. Umas pestes".


Também pergunta sobre o Beto, o "amigo" do filho. Ele diz que não se viam faz tempo, mas não teve coragem de contar a razão. Faltaram forças.


Sua mãe vai deitar, ele fica só com Linda na sala, olhando a deterioração de tudo, inclusive de seu passado. Ele se olha no espelho...


"Um por um, foi abrindo os botões. Acendeu a luz do abajur, para que a sala ficasse mais clara quando, sem camisa, começou a acariciar as manchas púrpura, da cor antiga do tapete na escada — agora, que cor? —, espalhadas embaixo dos pêlos do peito. Na ponta dos dedos, tocou o pescoço. Do lado direito, inclinando a cabeça, como se apalpasse uma semente no escuro. Depois foi dobrando os joelhos até o chão. Deus, pensou, antes de estender a outra mão para tocar no pêlo da cadela quase cega, cheio de manchas rosadas. Iguais às do tapete gasto da escada, iguais às da pele do seu peito, embaixo dos pêlos. Crespos, escuros, macios."


Importante frisar que Caio quase sempre abordou o tema do hiv/aids de forma metafórica, como um conjunto de sintomas característicos das mais frequentes doenças oportunísticas presentes em pessoas em fase de aids.


Conforme se percebe em sua coleção de cartas enviadas aos amigos, disponível no livro "Cartas: Caio Fernando Abreu" de Ítalo Moricone, Caio tinha muito medo do hiv/aids, e tinha uma sensação de que a qualquer momento iria descobrir que vivia com o vírus. Na época do lançamento de Os Dragões, contudo, ele ainda não tinha este conhecimento.


E quase todos os contos do livro Os Dragões têm uma indicação de música para ser ouvida durante a leitura, e neste conto específico, a música é "Só as Mães São Felizes" de Cazuza.


Ahh, vale lembrar que este conto inspirou o ator Rodolfo Lima a lançar seu monólogo "Todas as Horas do Fim", que já foi abordado aqui no blog:



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