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  • Lhivros e Arthivismo

Filme - STRIKE A POSE - Ester Gould

Na década de 1990, sete jovens dançarinos se juntaram a mais controvesa turnê da cantora Madonna. Na época, a jornada foi registrada no documentário Na Cama com Madonna. Auto-proclamada "mãe" dos seis dançarinos gays e mais um hétero, Madonna usou o filme para se posicionar sobre os direitos dos gays e da liberdade de expressão. Os dançarinos se tornaram símbolos de orgulho, inspirando pessoas a se desafiarem a serem elas mesmas. Vinte e cinco anos depois, eles compartilham suas histórias de vida durante e depois da turnê, mostrando que nem tudo foram flores.



A turnê “Blond Ambition”, de 1990, rendeu, entre momentos icônicos, o documentário “Na Cama com Madonna” – filmado na época dos shows. Relacionado com a série de apresentações, “Strike a Pose” acompanha sete dançarinos (seis gays e um hétero) dando depoimentos sobre a vida antes, durante e depois dos shows e de “Na Cama com Madonna”. O que aconteceu com eles depois da fama?


São eles: Salim “Slam” Gauwloos, Kevin Stea, Carlton Wilborn, Jose Gutierez, Luis Camacho, Gabriel Trupin e Oliver Crumes. Muitos deles esperavam continuar em turnês futuras da Madonna (Wilborn, por exemplo, até conseguiu participar da “The Girlie Show”), mas não foi muito bem assim.


Dos sete dançarinos, um deles (Gabriel Trupin) morreu em 1994 por conta da Aids e no documentário é representado por sua mãe. Nos anos 90 ele havia processado Madonna por danos morais, alegando que foi forçado a se dizer gay para a família por causa de um beijo gay em “Na Cama com Madonna”; Kevin Stea e Oliver Crumes também entraram na justiça contra a artista na época, pois queriam participação nos lucros da bilheteria do filme.


Dirigido por Ester Gould e Reijer Zwaan, “Strike a Pose” mostra, além de muita dança e festa, assuntos como dependência de drogas e álcool e conversas sobre o hiv, tema que está presente em vários momentos.


Durante a turnê, a cantora tratou de temas polêmicos e delicados ainda hoje, mas que na época eram muito mais inflamáveis, tais como a homossexualidade, a desmitificação da AIDS, a liberdade de expressão e o empoderamento feminino. Com toda extravagância e exagero, a artista garantiu sucesso crítico e de bilheteria com seu material, alçando os seus dançarinos ao posto de ícones na época. O que deveria ser uma benção, entretanto, se tornou uma maldição, pois os que acreditavam numa relação de amizade com a artista ficaram decepcionados, bem como aqueles que tiveram os seus egos inflados durante o período de superexposição não conseguiram segurar a onda depois que a fase passou, entregando-se ao álcool e drogas ilícitas.


Antes de chegar ao Brasil, a produção estreou no Festival de Berlim, na Mostra Midnight Docs, além de já ter passeado pelo mundo em outros eventos. Com um roteiro que trata poeticamente sobre mudanças, com personagens sociais que tiveram que lidar com os impactos da fama excessiva, mas temporária, Strike a Pose divide-se em duas partes, sendo a primeira uma recapitulação das memórias dos dançarinos, detalhes resgatados através de depoimentos e materiais de TV, trechos do videoclipe Vogue, cenas da turnê e de noticiários. No segundo momento, somos atualizados sobre o destino de cada dançarino. Slam, Kevin Stea, Carlton Wilborn, Jose Gutierez, Luis Camacho e Oliver Crumes prestam os seus depoimentos emocionados. Gabriel Trupin é o único que teve de ser representado por sua mãe, pois faleceu em decorrência das complicações envolvendo a AIDS em 1994.


Trupin foi um dos envolvidos no processo contra Madonna após a turnê, ao alegar que foi forçado a sair do armário para a família após a repercussão da famosa cena do beijo gay durante a brincadeira de “verdade ou desafio” proposta num dos maiores momentos encenados de Na Cama com Madonna. Os demais processos foram por participação nos lucros e exposição indevida. Com tom melancólico, José Gutierez e Luis Camacho contam como introduziram o voguing para a artista em 1989, o que culminou no deslumbrante Vogue, dirigido por David Fincher. Entre os relatos também está o trabalho que desenvolvem para sobreviver nesta era pós-Madonna, bem como os impactos das festas e drogas da época e suas reverberações na saúde de cada um deles atualmente.


Os dançarinos Slam e Carlton Wilborn revelam que convivem com o vírus HIV desde antes da turnê. Eles contam como tiveram de esconder tudo para que não perdessem oportunidades ou fossem estigmatizados. Carlton, por sinal, é um dos responsáveis pela cena mais metafórica do documentário. Filmado de costas, executa os passos clássicos de Vogue em um palco vazio, diante de uma arena de espetáculos completamente desocupada, representando de fato o tema do documentário: o “antes” e o “depois” da fama. Rico em contexto, Strike a Pose ganha pontos por não criar uma narrativa maniqueísta que constrói os dançarinos como vítimas e Madonna como algoz de seus respectivos destinos.

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