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  • Lhivros e Arthivismo

Livro - DEPOIS DAQUELA VIAGEM - Valeria Polizzi

Tendo os tratamentos antirretrovirais de alta eficácia chegado ao Brasil a partir de 1996, os livros autobiográficos anteriores abordavam a vida com hiv sempre com o medo do que era “inevitável” até o momento, a morte, o sofrimento. Mas a partir deste período, os livros já começam a abordar vidas plenas com hiv, em um movimento denominado de “literatura pós-TARV”. O livro Depois Daquela Viagem é o primeiro livro, ou ao menos o mais conhecido livro da era pós-TARV.





Foi um livro muito importante para mim também, por ter sido o primeiro lido após meu diagnóstico em 2016. Já havia tido contato com diversas outras obras que abordavam o hiv/aids mas desta vez eu estava no mesmo barco.


A coragem e sua luta da autora, Valéria Polizzi, acabaram por torná-la um símbolo de vida com hiv. O livro é uma autobiografia da autora, que aos 16 anos se infectou o vírus. Lançou-o em 1999, quando estava com 23 anos, após a insistência dos amigos que pediam para que ela contasse sua história, seus sofrimentos, mas também suas vitórias.


Em forma de diário, em tom coloquial próprio dos jovens, Valéria relata com bom humor e descontração as suas vivências com os amigos, os namoros, o despertar da sexualidade, a angústia diante dos exames e muitas outras coisas que atormentam qualquer adolescente.


O livro é o testemunho vivaz de uma adolescente com sólida formação educacional e familiar que por um desses descuidos cuja razão jamais se alcançará completamente, mantém uma relação sexual sem a utilização do preservativo.


Na obra, ela mostra como, de repente, por causa das quatro letrinhas, sua vida passou por uma reavaliação radical. Ela expõe, sem meias palavras, como a doença mexeu com sua cabeça e com seus sentimentos.


Depois daquela viagem é um livro triste e alegre, tocante e verdadeiro, um testemunho da coragem e da determinação de levar adiante a vida, apesar do hiv.


Como numa conversa entre amigos, o leitor tem a oportunidade de partilhar com Valéria a angústia de compreender que ela está com ais, um dos males mais comentados a partir da década passada. Ao mesmo tempo, Depois Daquela Viagem propicia uma verdadeira imersão cultural no cotidiano e na alma dos jovens de sua época.


O livro começa no ano de 1986 onde todos acreditavam que o vírus hiv só infectava homossexuais, que havia pouca informação de como evitar a infecção e também havia um grande preconceito com quem era infectado pela doença. Na época não havia remédio para evitar que os sintomas aumentassem. Só a partir de 1990 é que descobriram como diminuir os sintomas. O livro termina em 1994 com a doença no mundo aumentando cada vez mais.


Palavras da autora: “Pensar e escrever o livro foi um processo de três anos, no qual cresci muito. Em primeiro lugar, tive de trabalhar muitas questões dentro de mim, para depois colocá-las no papel. O intuito era mostrar que as pessoas podem viver com o hiv, para ajudar outros soropositivos como eu. E também mostrar que a aids pode acontecer com qualquer um”.


A vida é uma daquelas coisas tão presentes que passa despercebida. Às vezes nós precisamos quase perdê-la, ou achar que está por se perder, para lhe darmos o devido valor e dimensão. E, ainda assim, não conseguimos entendê-la direito”, reflete Valéria.


Valéria Piassa Polizzi era uma jovem como todas as outras. Aos 16 anos de idade, namorava um rapaz bem mais velho, de 25 anos. Namoro conturbado, ciumento, violento. E quente. Desinformada sobre os perigos das infecções sexualmente transmissíveis, aceitou quando o namorado quis transar sem camisinha, afinal, “ela não era puta” e só com puta é que era preciso usar preservativo. Dois anos depois do fim desse namoro, Valéria descobriu que vivia com hiv.


A autora ainda relata seu sofrimento e o dos pais quando tiveram os resultados dos exames, o medo de encarar as pessoas e todo o tempo que passou sem contar ao restante da família e aos amigos que tinha a doença.


Conviveu durante uns dois anos com os amigos sem lhes contar nada, morrendo de medo de que alguém descobrisse tudo, de que tivessem contato com seu sangue e também contraíssem a doença, com medo de ter um namoro mais sério. Ela termina o Ensino Médio, começa uma faculdade mas acaba desistindo do curso.


Após isso, Valéria viajou para os Estados Unidos para fazer um curso de teatro, aprendeu a viver sozinha, fez novos amigos mas continuava com medo de contar para os outros que vivia com hiv. Ela começou a ter alguns problemas de saúde, e ao procurar um médico, descobriu que existiam novos tratamentos e que a aids poderia ser controlada com medicação. No início, ela resistiu ao tratamento, pois estava esperando apenas sua morte chegar. Mas graças ao médico americano, que lhe incentivava, colocando-a em contato com outras pessoas que possuíam a doença e viviam normalmente, ela resolveu utilizar os remédios.


Ao voltar ao Brasil, sua saúde piorou, ela passou alguns dias internada no hospital e só nesse momento conseguiu contar para os amigos e familiares que havia desenvolvido um quadro de aids. Recebeu o apoio de todos e percebeu que poderia e deveria levar adiante sua vida, sem o medo de morrer a qualquer momento, como ela tinha antes.

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