top of page
Buscar
  • Lhivros e Arthivismo

Livro - DEVASSOS NO PARAISO - Joao Silverio Trevisan

Publicado originalmente no final dos anos 1980," Devassos no Paraíso" atravessou gerações, provocou intensa interlocução com a comunidade LGBTQIA+ e influenciou desde ações emancipatórias até pesquisas sobre gênero e sexualidade.




A cada edição, o autor João Silvério Trevisan revisa todos os capítulos existentes e amplia o número dos mesmos. Em 2018, foi lançada a 4a edição, com mais treze capítulos, que tratam de toda evolução ocorrida no século XXI.


Ativista pioneiro do movimento queer, João Silvério Trevisan nasceu em 1944. É romancista, contista, ensaísta, roteirista, diretor de cinema e dramaturgo. Participou da fundação do jornal Lampião da Esquina e do Somos — Grupo de Afirmação Homossexual. Em 1982, atendendo a um pedido da editora britânica Gay Men’s Press, começou as pesquisas para escrever uma história da homossexualidade no Brasil. Tem uma vasta e importante obra publicada.


Já no primeiro capítulo, "Cine Iris e os bastidores do Brasil" o autor fala sobre o retrocesso social em relação aos direitos dos LGBTQIA+ que a aids causou, movimento "catalisado" pela onda neoliberal vigente à época.


Da mesma forma, o hiv/aids "redefiniu" as possibilidades de definição para pessoas que praticavam sexo com homens, ultrapassando limites como homossexuais ou bissexuais. Ao mesmo tempo, seria altamente estigmatizante e segregadora.


Também, em um capítulo chamado "O Brasil mostra sua cara", o autor discute como os cantores Cazuza e Renato Russo deram uma nova cara aos LGBTQIA+ no país, e também marcaram o Brasil como a primeira cara da aids, e como a doença influenciou suas composições. Cita, por exemplo, a música "Via Láctea" de Renato Russo como exemplo.


Neste mesmo capítulo, fala sobre como artistas não heterossexuais faziam questão de se desvincular de rotulações diversas, assim como a mídia fazia questão de frisar a heterossexualidade de Betinho.


Outro capítulo que aborda os reflexos do hiv/aids é o "As peripécias do corpo", ao abordar justamente o processo inicial de descoberta da aids em solo brasileiro. Pânico, boatos, e o estigma passaram a ser constantes. Ao belo tempo, surgiram as primeiras reações médicas governamentais. Hospitais particulares que atendiam também pelo Inamps se recusavam a atender pacientes com hiv/aids. Mídias, como a revista Veja, alegavam que fazia mais sentido gastar dinheiro com a doença da pobreza do que com pessoas em fase de aids.


A cena noturna LGBTQIA se esvaziou. Boates, saunas, clubes, tudo ficou vazio. O medo era o denominador comum.


No capítulo 39, denominado "In peste veritas", Trevisan explica como a aids foi considerada como a grande peste, a peste gay, a peste de Deus contra seus filhos transviados. Descobrir-se infectado com hiv era automaticamente ser inserido em uma comunidade de párias. O autor não economiza na descrição dos exemplos mais absurdos, e reais, de como a sociedade brasileira (em todos os seus extratos sociais) agiu com preconceito em relação às pessoas vivendo com hiv. E essa situação alcançou tal nível que pessoas se suicidaram ao se descobrirem vivendo com hiv.


O capítulo seguinte, de nome "Os anos de pânico" continua a narrativa de como o medo continuou na primeira metade da década de 90. Ele funciona como uma sequência do capítulo anterior, com as mesmas reações, independentemente do conhecimento que a ciência já possuía sobre o hiv. O estigma criado na década passada estava consolidado, sem nenhum avanço. Talvez as coisas tivessem ficado ainda piores. Já havia uma resistência por parte da população homossexual, mas os demais setores da sociedade não escondia sua sorofobia. Houve, inclusive, um atentado a bomba em um cinema de pegação na cidade de São Paulo.


Neste ponto, o autor parte para uma análise, muito bem fundamentada, no papel que a aids teve em amalgamar a cultura queer, dizendo inclusive que o hiv tornou próxima a figura da pessoa não heterossexual, fazendo com que ela deixe de ser abstrata para se tornar tangível, inclusive dentro de cada um de nós, mesmo que seja no meio abstrato.


Após os capítulos propriamente ditos, há textos esparsos catalogados em um apêndice. Dentre eles, existe um, profundamente claro e ao mesmo tempo perturbador, chamado "O vírus, nosso irmão", publicado originalmente em uma edição da saudosa revista Sui Generis, em 1997.


Nele, o autor chega ao ponto de dizer que o hiv tem um lado de benção... Tal afirmação se embasa na ideia de que o vírus teria trazido à tona uma série de noções que a contemporaneidade teria esquecido: a concretude de que a morte é um fato inequívoco, tão certo quanto a própria vida. Nas palavras dele, só privilegiados seriam capazes de "viver na intensidade de uma morte anunciada". Pensando na Covid-19, esta ideia continua muito atual.


Ao mesmo tempo, o hiv fez com que a existência do corpo queer, desviante, existe, não mais como conceito abstrato, mas real, personificado.


É um livro obrigatório para quem se interesse por qualquer vertente da sigla LGBTQIA+.

17 visualizações0 comentário

Bình luận


bottom of page