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  • Lhivros e Arthivismo

Livro - MEU IRMAO EU MESMO - Joao Silverio Trevisan

O autor do livro "Meu Irmão, Eu Mesmo", João Silvério Trevisan, é sem sombra de dúvida um dos maiores ativistas, escritores e pesquisadores das questões LGBTQIAP+ no Brasil. Sua biografia é extensa, assumindo publicamente sua homossexualidade na época da vigência do Ato Institucional nº 5, o que lhe fez mudar-se para a Califórnia, onde acabou se assumindo politicamente.



Voltando ao Brasil, foi um dos fundadores do grupo Somos na defesa dos direitos dos homossexuais e sua descriminalização na década de 1970. Até setembro de 2005 atuava como diretor da oficina literária do SESC. Assinava uma coluna mensal na revista G Magazine. Também fez parte, desde a fundação, do jornal lgbt O Lampião da Esquina.


Dentre seus livros, um se destaca, o Devassos no Paraíso, já abordado aqui no blog e cuja leitura é obrigatória para todas as pessoas que se interessem por qualquer vertente da sigla LGBTQIAP+ e sua História.


Em relação ao hiv, ele foi também um ativista desde a descoberta do vírus, em todos os níveis, mas ele nunca havia falado sobre o fato de viver com ele.


É irmão do contador Antoninho Trevisan, fundador da BDO Trevisan e presidente da Academia Brasileira de Ciências Contábeis, ABCC. Teve também um irmão, chamado Cláudio Trevisan, que faz parte desta obra em sua totalidade, desde o título.


Seus livros geralmente trazem citações ao hiv/aids, especialmente o Devassos no Paraíso, no qual ele faz uma análise muito bem feita, mas um pouco indigesta para algumas pessoas, a de que o hiv/aids trouxe ao mundo a realidade da existência das pessoas LGBTQIAP+, o que era escondido foi forçosamente revelado.


Ao ler tal afirmação pela primeira vez, senti um certo incômodo, por uma fala que poderia ser reconhecida como pouco caridosa para com as pessoas que morreram em decorrência da aids, mas sua lógica é inegável.


E aqui, nesta obra, que foi uma das que mais emocionou nos últimos tempos, o autor, que conviveu com a questão do hiv/aids desde seu início, declara abertamente, pela primeira vez, viver com o vírus e como tal fato o acompanhou ao longo das décadas. Ele testemunha, em "Meu Irmão, Eu Mesmo", como a aids influenciou a sociedade brasileira desde antes do resultado positivo para o hiv, de 1992 aos seus 48 anos (coincidentemente, a mesma idade com que o seu irmão Cláudio faleceu), contando sua própria história e as inúmeras conexões com as histórias de outras pessoas com quem conviveu e também foram de uma forma ou de outra influenciadas pelo hiv.


Suas razões pelas quais não tornou pública sua vivência com hiv também são aqui expostas, com tal clareza e inclusive com exemplos de casos que ele desejava evitar, que se tornam compreensíveis.

Especialmente para um escritor no Brasil, em suas próprias palavras "... um eterno mendicante de migalhas...".


E a partir da segunda metade do livro, o autor passa a descrever, com detalhes sem limites, a doença do amado irmão Cláudio, sua evolução, atrelada ao hiv de João, que na época não tinha tratamento. Uma doença vista como curável e outra que significava a morte certa (como se não fôssemos todos morrer um dia).


Conta como falava sobre a saúde do irmão publicamente, ao passo que não revelava com a mesma abertura o fato de viver com hiv. E ele falece em 1996, mesmo ano em que a terapia de alta eficácia para o hiv chegou ao público, coincidência(?) da vida.


As cartas escritas ao irmão e nunca enviadas causaram um forte impacto em mim. Especialmente porque escancaram uma realidade dura e que tem uma difícil explicação. A chamada "culpa do sobrevivente", que básica e pessimamente resumida é uma sentimento de estar melhor que outra pessoa, no caso o irmão. Em vários trechos do livro esta culpa é evidente, e acredito que o processo deste livro tenha sido bastante catártico.


Ao mesmo tempo, por algumas vezes durante a leitura, fui me percebendo um pouco desconfiado. Ninguém é assim tão transparente, ninguém expõe todos os esqueletos que estavam guardados no armário, e nessas horas, eu me perguntava se não estaria sendo manipulado. Mas aí percebi que isso não faz a menor diferença. Há muitas conexões entre mim e o texto deste livro, inclusive a possibilidade de reinventar a verdade, se necessário for, para sobreviver neste mundo tão sombrio e cruel. E também por três vezes eu me peguei chorando de emoção durante a leitura. Este livro é mais que recomendado, é mesmo obrigatório.


Mas se eu pudesse escolher uma trilha sonora para a leitura, seria "Pedaço de Mim" de Chico Buarque. Ou seguir as sugestões do autor, que cita o quarto movimento da 9a sinfonia de Beethoven, as suítes 1 e 4 para cello de Bach, o concerto para cello de Dvorak, o concerto para clarinete de Mozart ou o Um Requiem Alemão de Brahms .

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