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  • Lhivros e Arthivismo

Livro - ONDE ANDARA DULCE VEIGA - Caio Fernando Abreu

O livro "Onde andará Dulce Veiga?" de Caio Fernando Abreu, foge um pouco do estilo de construção textual de suas obras anteriores. Quase nada de escritas caóticas, tudo aqui funcionando como um roteiro. Diversas passagens contém citações e a estrutura é montada de forma a permitir que o livro possa ser adaptado tanto ao cinema como ao teatro. Mas ao mesmo tempo, é um dos melhores livros dele, na minha opinião.


Caio já havia abordado o hiv/aids em outros textos, especialmente "Linda, Uma História Horrível", que está no livro "Os Dragões Não Conhecem o Paraíso", de 1988, mas aqui ele se aprofunda mais.



Quem já leu seu livro de cartas, sabe que pela época do lançamento do livro aqui comentado, sabe que o autor frequentemente se perguntava se viveria ou não com o vírus, já estava permeado por aquele medo que toda pessoa que fazia sexo com homens sentia. Afinal, estamos falando de 1990, ano em que foi publicado. Caio só fez o teste de sorologia para o hiv 4 anos depois.


Em "Onde andará Dulce Veiga?", temos um narrador-personagem inominado, que tem uma única grande missão atual na vida: encontrar Dulce Veiga, uma cantora que foi relativamente famosa em seu tempo, da época das cantoras do rádio, mas sumiu inexplicavelmente logo antes de um grande show.


Ao longo do texto, o autor mostra que o passado já foi, era melhor que o presente, os marcadores temporais remetem ao fato de que o presente é fruto da decadência do que passou. Como se pequenas tragédias individuais, somadas, conduzissem a ruínas. Alegorias


Por todo este contexto, percebe-se que a questão do hiv é como que um elemento estrutural do texto, uma espécie de esqueleto invisível. Por exemplo, a primeira vez que a aids é citada no texto ocorre assim:


- Esse era Ícaro

- Por que era, ele morreu?

- Faz um ano

- Overdose?

- Digamos que sim


Em outra oportunidade, um ex-amante de Dulce é encontrado em um quadro que pode ser entendido como de alguém em estágio de aids. A filha de Dulce também não tem tempo... Ela sabe que a sua vida pode terminar em breve... Ela tem caroços por debaixo da pele, gânglios inchados. Só aí ela faz menção expressa à aids.


E o personagem principal, finalmente, tateia sua pele e diz que seus gânglios também estão inchados, iguais aos de Márcia. E então ele relembra o passado...


Só a partir deste momento é possível perceber que todo o livro pode ser uma alegoria da vivência com hiv, e como ele impacta profundamente o autor. Só aí o véu se levanta e o leitor tem mais consciência das máquinas que moveram a obra até ali. Ele corre atrás de si mesmo, ao mesmo tempo que foge da mesma coisa. Tudo no livro é sobre o narrador, e ele é todo Caio.


Numa forma de epílogo, há trechos de cartas escritas pelo autor a amigos que citam a obra. Já na primeira, ele diz que o romance estava em fase de construção desde 1985.

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